quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Rainha do sangue

Assim que chegou em sua mansão – após um longo dia – Mary Castell retirou a gravata que apertava sua garganta, logo a atirando no chão, seguido dos saltos que machucavam seus pés, a meia-calça que parecia estrangular suas pernas, o terno que prendia seus braços e aquela maldita saia limitando seus movimentos.
Finalmente estava livre, quando entrou em seu salão de treino um homem a aguardava meditando, não foi surpresa alguma vê-la entrando seminua, mesmo Mary possuindo um corpo de aparência dita como inalcançável, bem definido, forte, sem quaisquer manchas ou marcas, não era a primeira vez que via aquela miragem.
Ela vestiu seu quimono rapidamente, se pondo em posição de combate – sem cumprimentos ou qualquer coisa do tipo – pratica e objetiva como sempre.
Duas horas seguidas de treino sem paradas, um treino intenso, ambos ofegavam e pingavam suor quando terminaram, sem vencedores. Quando Dalia entrou anunciando que o jantar estava pronto sua postura mudou, voltando a parecer totalmente serena, mesmo com seus cabelos e rosto encharcados.
Após um convite rapidamente recusado para acompanha-la, Castell deixou seu mestre retirando o quimono, Dalia ajudou-a vestindo o roupão e lhe entregando uma toalha para seu rosto e cabelo.
Enquanto jantava Mary assistia noticias sobre economia e política, um candidato a prefeito foi assassinado em Hergos, seria coincidência Lexaror ter estado ali poucos dias antes? Ela duvidava.
Dalia permanecia ao seu lado pronta para atender sua mestra a qualquer momento, acompanhada por outros quatro serviçais ao redor da mesa.
—A senhora gostaria que eu já preparasse seu banho, mestra? — Sussurrou a jovem.
—Ainda não, Dalia. — Respondeu Mary. — Tenho assuntos para resolver, tudo está tudo pronto lá embaixo?
—Tudo perfeito, mestra. — Respondeu ela. — Não precisa se preocupar.
—Muito bem, vou descer então.
Assim que se levantou os empregados começaram a retirar a mesa.
Mary seguiu para o seu quarto, indo diretamente para o closet onde havia um alçapão que levava ao porão. Descendo as escadas ela tentava planejar o que faria, porém, a própria sabia que tudo acabaria por se tornar uma selvageria total.
Um jovem surgiu em seu campo de visão — completamente amarrado em uma cadeira — ele já estava ali a dez dias, faziam três que ela não o via, nesse tempo Dalia o havia alimentado e tratado seus ferimentos. A poucos metros do rapaz estava uma mesa com diversas ferramentas, objetos afiados e até mesmo a bateria de um carro com cabos conectados nela.
Destoando totalmente dos outros itens uma muda de roupa fora deixada sobre a mesa, Mary rapidamente atirou seu roupão para longe o trocando por uma saia justa e sua camisa mais velha, aquele era o único momento da vida em que ela não se importava com que roupa estava usando.
Quando retirou a venda do jovem sua agitação triplicou, somente duas pessoas desciam ali, Dalia para tratar seus ferimentos e ela para causa-los, não havia como confundi-las.
—Como tem passado, Josh? — perguntou ela arrancando sua mordaça. — Cuidaram bem de você?
—Por favor! Por favor! Me deixa ir! — Implorou o garoto. — Juro que não vou contar para ninguém.
—Pobre Josh. — Caçoou Mary pegando um alicate. — Bem que dizem: “A esperança é a última a morrer.”
Antes mesmo que ele pudesse perceber o alicate entrou em sua boca sendo fechado com sua bochecha entre ele. Um grito ensandecido tomou conta do porão, porém nem um decibel escapou do lugar graças ao isolamento que custou bem mais caro para não existir nos registros, assim como não seria comentado fora dali.
—Isso mesmo! Grite! — Gemeu Castell. — O mais alto que puder! Até sua garganta sangrar!
Quando o alicate deixou sua boca Josh aproveitou para cuspir todo sangue nela na mulher que o torturava, cobrindo metade de seu rosto e manchando suas roupas. Com um olhar espantado ela tocou seu próprio rosto, as pontas de seus dedos foram pintadas de um vermelho intenso, que desapareceu entre os lábios da mulher.
—Parabéns, vadia. —Disse Josh com dificuldade. — Sabia que eu tenho AIDS?
Mary aproximou o rosto do rapaz, segurou seu queixo e sussurrou em seu ouvido.
—Você fica tão bonitinho mentindo. Só para você saber, antes de começarmos, eu verifiquei cada doença que pudesse ter, você é um jovem muito saudável.
A cabeça do jovem baixou como se fosse pesada demais para mantê-la erguida, por que aquilo estava acontecendo com ele? O que havia feito de tão ruim para merece-lo?
Seus pensamentos foram rapidamente cortados pela terrível dor de um prego atravessando seu braço. Nas mãos de Mary estava uma pistola, um de seus brinquedos favoritos. A pistola de pregos é rápida e não exige esforço algum, sua única desvantagem é não transmitir a sensação de estar perfurando o corpo.
—Por quê? — Gritou Josh entre as lagrimas. — O que eu te fiz? Você está ganhando alguma com isso?
Um sorriso doce e sincero tomou o rosto da mulher.
—Claro que estou querido. — Ela acariciou seu rosto. — Sei o quão terrível tudo isso parece para você, no entanto, do meu ponto de vista, é o maior prazer que existe.
Mais um prego perfurou a pele do jovem, dessa vez em sua coxa, Castell pode ouvir cada centímetro do músculo sendo rasgado, alojando-se perfeitamente no lugar, como se fosse feito para estar ali, uma onda de puro prazer a percorreu.
—Coloque sua língua para fora. — Ordenou ela.
O garoto balançou a cabeça desesperado, fechando sua boca com toda força que pode.
—Não é um pedido! — Rosnou ela batendo a pistola em seu queixo. Um prego perfurou cada uma de suas orelhas, Castell não é alguém que aceita bem ser contrariada. —Abra a boca.
Ele voltou a se negar e dois pregos perfuraram seu ombro.
—Sua língua, Josh.
—Não... — gemeu o jovem.
Ela agarrou seu rosto e apontou a pistola diretamente para o olho de Josh.
—Vou ser direta, — começou Mary, — você pode passar seus últimos dias no escuro ou me obedecer logo!
Extremamente relutante ele abriu a boca e pôs a língua para fora, que logo foi trespassada por um prego, tudo estava sob controle de novo.
—Agora, acho que suas unhas cresceram muito nesses dias. — Disse ela pegando outro alicate.

------- † -------

Após pouco mais de uma hora ambos estavam cobertos pelo sangue do jovem e exaustos, ela satisfeita enquanto ele agonizava, lutando para continuar vivo.
—Acho que está bom por hoje. — Disse Castell colocando um estilete ensanguentado sobre a mesa.  — Nos veremos novamente em breve, querido.
Enquanto subia as escadas ela pensava na sorte que dera encontrando aquele jovem, era raro as pessoas manterem a esperança por tanto tempo, provavelmente ele só se mantinha vivo graças a isso.
Assim que deixou o closet Mary se deparou com Dalia a aguardando em seu quarto, prontidão é algo muito valorizado por ela, algo que Dalia possui de sobra, a jovem conhece bem seus deveres.
—Seu banho já foi preparado, mestra. — Disse a jovem se curvando.
Mary tirou suas roupas as deixando ali mesmo e indo diretamente para o banheiro, antes de entrar na banheira ela se pôs sob a ducha para retirar o máximo de sangue possível, todo seu cansaço parecia descer ralo abaixo.
Uma banheira quente é uma das formas mais relaxantes de se terminar um dia, principalmente após tanto esforço, foi então — em seu momento mais relaxado — que ela percebeu haver algo errado. Algo a mais.
Por sua guarda estar baixa Mary demorou para perceber a maleta sobre o balcão da pia, um objeto que com certeza não deveria estar ali. Seu primeiro pensamento foi estar com uma bomba ao seu lado, porém, quando se levantou assustada, percebeu a carta selada por cera com um enorme L.
Seria impossível um de seus funcionários deixar aquilo ali sem ser visto por Dalia e ela duvidava que a jovem pudesse ter feito algo do tipo.
“Lexaror tem pessoas habilidosas ao seu lado.” Pensou ela. “Não sei se isso deve me confortar ou preocupar.”
Sem esperar ela vestiu a primeira roupa que encontrou e partiu para o seu escritório.
 Mary começou abrindo a carta, nela só havia um convite para uma festa na capital, São Cielos, que aconteceria em alguns dias. Já a mala estava repleta de coisas, todas muito interessantes, uma série de documentos sobre o grande empresário da área farmacêutica, Robert Davis, desde as ações de sua empresa e ONG’s que ajudava até seu peso e tipo sanguíneo, logo seguidos por diversas fotos dele fazendo sexo com várias mulheres diferentes, todas elas negras, Castell não estava gostando daquilo, também havia um pequeno comprimido numa embalagem de plástico escrito “sublingual”, um bilhete parecia explicar tudo aquilo.
“Senhorita Castell, estou a convidando para festa beneficente do senhor Robert Davis, onde deve mata-lo com este comprimido, caso possua uma arma mais eficaz e/ou consiga executar este serviço antes do prazo sinta-se livre para agir, apenas lembre de não deixar rastros.
L.S.”
Quase tudo fazia sentido agora, exceto pela carta de tarô segurando uma caveira sentada em um trono feito do mesmo.
Mesmo sem querer aceitar ela percebeu que aquela era uma representação sua, claro, ser chamada de rainha fazia seu ego aumentar e muito, porém Lexaror queria que ela seduzisse um velho decrepito e isso era o equivalente a chama-la de prostituta, Mary não aceita ser ofendida assim.
“Isso terá volta Lexaror,” pensou ela, “posso garantir.”
Porém, por enquanto, ela tinha um assassinato para planejar, enquanto pegava as plantas da mansão do senhor Davis a mulher se perguntava quais seriam as motivações para aquilo.

Caçada e captura


No porão de sua casa Sandro Diaz observava um mural com a foto de três homens, um jovem negro de cabeça raspada, outro branco com longos cabelos dourados e um homem já com seus quarenta anos e cabelos bem penteados começando a se tornarem grisalhos.
O tipo favorito de Sandro são homens com cabelos mais longos, por causa da facilidade em se manter a cabeça segura, porém o rapaz negro possuía um pescoço magro onde sua mão parecia se encaixar perfeitamente, estava sendo difícil escolher apenas um.
“Segundo Simon eu poderia pegar os três,” pensou ele, “no entanto devo dar algum espaço de tempo, para não dificultar seu trabalho.”
“Mas quanto? Alguns dias? Uma semana? Duas? Um mês?”
Aquela dúvida o estava matando, seu estômago doía com a animação de poder capturar os três em um único mês, porém a ideia de ser descoberto era aterrorizante.
Bem, se mantivesse o cuidado no mesmo nível as chances de ser pego eram mínimas, então por que não arriscar? Valia a pena. A primeira vitima seria Jeferson, o jovem negro com seu belo pescoço pronto para ser empurrado até o fundo de um barril.
Ele revisou a ficha que fez do rapaz, em poucas horas ele deixaria o bar em que trabalhava e percorreria um caminho de vinte minutos até o metrô, esse seria o momento perfeito para agir, as ruas daquela região costumam ser extremamente calmas, principalmente naquele horário.
Em dez minutos Diaz partiu com seu carro para a zona oeste, se tudo saísse como planejado estaria no lugar em meia hora, contanto que nada o atrapalhasse no caminho.
Mesmo tendo chegado dez minutos depois do planejado ainda daria tempo de preparar tudo se fosse rápido. Uma de suas partes favoritas, fora o afogamento em si, é executar o plano de captura, cada alvo exige um método diferente de aproximação e ele adora interpretar.
Segundo sua pesquisa Jeferson era um jovem caridoso, do tipo que adora fazer doações e trabalhos voluntários, não importa o quanto estivesse cansado ele sempre pensava no próximo então Sandro decidiu se vestir como um morador de rua.
Não foi preciso esperar muito para que seu alvo virasse a esquina, assim que o jovem passou por Sandro ele estava irreconhecível, envolto por um cobertor velho, os cabelos desgrenhados tão sujos quanto seu rosto e roupas. Ele estendia sua mão, que tremia levemente, pedindo um trocado qualquer.
Como um rato atraído para ratoeira Jeferson se aproxima sem desconfiar de nada, puxa sua carteira e pega uma nota. O que mais impressionou a Diaz não foi a prontidão do jovem em ajudar um completo estranho, mas sim seu sorriso de satisfação, como se aquilo o fizesse estar completo.
O garoto entregou a nota e no momento que suas mãos se tocaram seu braço foi agarrado, os aproximando repentinamente fazendo seus rostos quase se tocarem. Sandro então cravou uma agulha em sua coxa, injetando cem miligramas de haloperidol no jovem que desfaleceu imediatamente.
Tudo como planejado, agora só era necessário arrasta-lo até o carro, algo fácil já que Jeferson não passava dos sessenta quilos, bem no limite da sua força.

------- † -------

Acordar em um lugar desconhecido sem saber como chegou ali é uma das sensações mais aterrorizantes que se pode sentir, quando os primeiros segundos de confusão passam e você percebe estar amarrado em uma cadeira toda a realidade parece ser alterada para fantasia insana de um pesadelo.
Esse era o sentimento de Jeferson ao se ver em um galpão vazio, preso e amordaçado diante de um homem de bermuda e camisa polo — pronto para um passeio matinal — enchendo um galão com uma mangueira.
—Em... é... ocê? — tentou perguntar ele.
O homem virou sua atenção para o jovem.
—Ah, que boa surpresa. — Disse o estranho. —Acordou antes do que eu imaginava. Bem, já estamos quase prontos para começar.
Ele não sabia o que estava para acontecer, porém tudo apontava para algo horrível, precisava escapar dali de qualquer jeito. Sua primeira ideia era soltar aquelas malditas amarras, mas fazer alguém dormir não é o único efeito de um sedativo, seu corpo estava sem força para se mover.
—Não adianta tentar se soltar. — Disse o homem soltando a mangueira e se aproximando. — Você vai ter dificuldade para se mover nas próximas horas... Mas não vai ser um problema para você considerando o que está para acontecer.
“Agora vou tirar essa mordaça e você não vai gritar, estamos entendidos?”
Jeferson concordou com a cabeça.
—Socorro! — Gritou ele assim que pode. — Por favor! Alguém!
O homem apenas sorriu diante do seu desespero, ele já sabia que aquilo aconteceria.
—Pobre Jef, — zombou ele, — achou mesmo que isso fosse dar certo?
Aquele desgraçado só estava brincando com ele, se divertindo com seu sofrimento, mas ele não podia aceitar aquilo sem lutar, o jovem pôs toda sua força em seu braço direito, esforço que rendeu apenas um leve empurrão contra a amarra e grandes gargalhadas do homem a sua frente.
—Seus esforços me divertem. — Disse ele soltando os pés do jovem. — Porém estamos ficando sem tempo, vamos começar logo isso.
Quando seu braço foi solto Jeferson tentou socar seu raptor e tudo que conseguiu foi um movimento lerdo e desajeitado, fácil de ser evitado.
—Por que está fazendo isso? — Perguntou o jovem. — O que você quer?
—Bem, Jeferson, — respondeu o homem soltando a última amarra, — para ser sincero eu quero enfiar sua cabeça naquele galão, então se puder colaborar e lutar bastante, eu iria agradecer.
Assim que o estranho ergueu seu corpo, segurando por baixo de seus braços, ele começou a se debater, tentando para-lo empurrando seus pés contra o chão, forçando seu corpo a se mover corretamente, tudo em vão.
Cada passo mais perto do galão era agoniante, como se mil agulhas furassem sua pele, ele sabia que estava perto do fim, mas precisava tentar fugir.
Com o resto de suas forças Jeferson começou a balançar seu corpo, uma tentativa desesperada de se soltar, o que pareceu funcionar no momento em que chegaram diante do galão, as mãos de seu algoz afrouxaram o aperto, estava livre, precisava aproveitar e fugir. Um novo aperto veio, seu corpo foi agarrado com força, porém, dessa vez, mais em baixo, estava sendo erguido.
Não houve uma frase de efeito, direito a últimas palavras ou hesitação por parte do homem, ele apenas agarrou seu pescoço e afundou sua cabeça no galão. Jeferson tentou segurar nas bordas para se afastar, mas não possuía força suficiente em seus braços.
Água gelada bateu em seu rosto com violência e, enquanto se expirava o último folego, começou a invadir seus ouvidos, logo seguindo por seu estômago e pulmões.
Os seres humanos possuem necessidades básicas para sobreviver e quando uma delas é ameaçada seus instintos os levam a cometer atos extremos, sentir fome por longos períodos pode levar alguém ao canibalismo , já a sede pode fazer alguém consumir água de qualquer lugar, mesmo que isso ponha sua saúde em risco, porém existe uma necessidade que nos leva a agir imediatamente, a falta de oxigênio, algo tão essencial para vida que pode nos levar ao impensável. Jeferson o descobriu quando conseguiu balançar aquele galão muito mais pesado que ele e se erguer para respirar um pouco de ar.
Sem aguardar um segundo sequer ele foi novamente empurrado para água, o homem passou a apertar seu pescoço com ainda mais força. Enquanto lutava sua força ia lentamente se perdendo, a escuridão começava a domina-lo. Nos filmes, seria nesse momento em que ele deveria ser salvo ou descobriria uma forma de escapar, não podia morrer daquela forma, tinha que se livrar dessa.
Porém aquilo não era um filme.

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Enquanto segurava o jovem inquieto e sua camisa era encharcada por seus movimentos desesperados, Sandro respirava pesadamente, aquilo estava sendo incrível. Nas duas vezes em que Jeferson se ergueu – tentando loucamente respirar – ele mordeu o lábio com força na tentativa de não gozar ainda.
Os movimentos do jovem logo começaram a se tornar mais lentos, perdendo toda sua força inicial, o fim estava próximo.
Quando as últimas bolhas de ar subiram, enquanto o corpo do pobre coitado permanecia imóvel com sua cabeça afundada no galão, Sandro não precisou mais se segurar, sua calça ganhou uma mancha forte. Ele soltou o corpo e cambaleou para trás, perdendo o equilíbrio, acabando por cair sentando no chão, aquilo foi perfeito.
Porém não havia tempo para se perder apreciando o momento, precisava limpar tudo por ali antes que a manhã chegasse e os guardas acordassem, para sua sorte os funcionários da noite ali não eram muito bons e, é claro, podiam ser facilmente comprados caso acordassem, já acontecera uma vez.
Bem, aquela bagunça não iria se limpar sozinha.

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Andando pela rua Charles escuta a notícia, na televisão de bar, de um jovem encontrado no litoral da Praia Azul. Não fazia sentido parar por aquilo, mas o que fazia?
“O jovem foi encontrado a dois quilômetros do cais, onde acreditasse que ele se atirou.” Disse o âncora. “Os familiares dizem que Jeferson Menezes era um rapaz alegre que amava ajudar o próximo, ninguém poderia imaginar que faria algo assim.”
Tão rápido quanto surgiu o interesse de Charles sumiu, ele deixou o bar, partindo para a rua principal, quinhentos metros para frente tinha um trabalho à cumprir.

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domingo, 5 de agosto de 2018

Lei da selva

Faltava pouco para o sol nascer quando John Care acordou com um solavanco do trem, ele levantou assustado, sem lembrar por um momento onde estava, algumas das pessoas no vagão também despertaram e o observavam assustadas, um homem daquele tamanho tem muita facilidade para assustar os outros.
—Desculpe. — Disse ele simplesmente, voltando a se sentar.
O dia anterior havia sido intenso demais para que voltasse a dormir tão rapidamente, primeiro a descoberta de seu maior segredo, seguido por uma proposta para que mais ninguém o descobrisse e por último conseguiu comprar o melhor ponto para abrir mais uma de suas academias por um trocado. O homem com quem ele se encontrou obviamente tinha alguma relação com Lexaror, porém ele pouco se importava contanto que estivesse lucrando com isso.
Enquanto o trem avançava rapidamente pelos campos escuros de Nova Elli a caminho da Cidade Olimpo ele pensava no quanto ainda sobrara em seu estoque, o suficiente para pelo menos mais uma semana, quem iria renova-lo?
A quantidade de alvos possíveis era tão extensa que John não se dava ao trabalho de anotar ou pesquisar sobre algum, apenas via alguém que parecesse bom, o seguia até ter a chance de atacar.
“Senhores passageiros,” anunciou uma voz no alto-falante do vagão, “chegamos a estação da Cidade Histórica de São Teros. Permaneceremos parados por cerca de trinta minutos para conferência e manutenção do veículo, pedimos sua compreensão.
Se estressar é algo que não faz bem para a saúde e Care se importa tanto com isso quanto com sono bem regulado, então apenas tentou voltar a dormir, porém alguém chamou sua atenção. Um homem aproveitava a parada para trocar de vagão.
Um rapaz forte, músculos bem definidos, a pele fina com as veias destacada e, o mais importante, sem qualquer vício aparente. A vítima perfeita.
Assim que o jovem passou para o próximo vagão John se levantou e foi atrás dele. Aquele garoto poderia render até um mês e meio, não havia chance de perde-lo. Enquanto pensava em um plano para subjugar o rapaz, outro já se formava para interagir com ele. Care pode se alterar as vezes, mas quando se trata de uma presa ele se torna uma pessoa extremamente calculista.
Vários planos já estavam prontos em sua cabeça, agora só restava descobrir que rumo as coisas seguiriam.
—Ei rapaz! — Chamou ele de repente. — Deixou cair.
Em sua mão Care mostrava uma nota de cem que acabava de tirar do bolso.
—Nossa! Obrigado! — Respondeu o jovem batendo em seus bolsos, como se procurasse algo. — Não acredito que quase perdi esse dinheiro, muito obrigado.
“Falso como uma nota de três.” Pensou ele entregando o dinheiro.
—Parece estar procurando algo. — Continuou John. — Quer ajuda?
—Só estou procurando o vagão bagageiro. — Respondeu o jovem. — Esqueci meu remédio na mala e está quase no horário de toma-lo.
“Medicação as quatro da manhã?” Se perguntou ele. “Bem vamos fingir que está tudo certo.”
—Sei qual é. — Respondeu o gigante tentando parecer prestativo. — Vem, vou te mostrar.
“A mente é de um ladrão mentiroso, mas a carne parece aproveitável.”
Os dois voltaram a andar com John seguindo na frente indo direto para o último vagão. É óbvio que só podia ser ali e isso significava que uma de suas hipóteses estava se confirmando.
—Aqui está. — Disse ele apontando para porta. — Mas acho que deve estar trancada.
—Isso não vai ser um problema. — Respondeu o jovem. — Acho que sabe porquê vim aqui.
A expressão de Care se tornou um pouco mais tensa, tudo estava saindo como planejado, agora só faltava confirmar uma coisa.
—Claro que sei. — Respondeu ele em um tom mais grave.
—Então qual sua intenção comigo? — Perguntou o rapaz.
—Bem... Como posso dizer? — Disse John pensando nas palavras certas. — Eu fiquei interessado no seu corpo.
Um sorriso malicioso surgiu no rosto do jovem, a ideia parecia tê-lo agradado. Tudo como planejado.
—Eu não costumo ficar com pessoas mais velha. — Comentou ele. — Mas gostei de você, acho que podemos usar esse vagão para coisas ainda mais interessantes.
Sem dizer mais ele puxou dois clipes do bolso, colocou na fechadura e a destravou sem dificuldades.
—Ah, você não precisa saber meu nome. — Disse o jovem abrindo a porta.
—Acho que isso não é um problema. — Respondeu John entrando no vagão.
Aquilo não era novidade para ele, é extremamente comum seduzir suas presas antes de abate-las, para Care não importa o gênero apenas a qualidade do corpo e aquele jovem estava em ótimo estado, em todos os sentidos.

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O balanço do trem e a chance de serem pegos tornava aquilo ainda mais prazeroso.
—Ah Deus! — Gemeu o rapaz soltando Care e se virando de costas. — Agora, vai, me come!
—Isso vai ser um prazer. — Ofegou Care. — Se prepara.
Ambos gemeram quando ele enfiou, já no êxtase do prazer, com um orgasmo preste a vir para os dois, quando a mulher no alto-falante anunciou que acabavam de entrar na Cidade Olimpo, Care colocou a mão sobre o rosto do jovem, que imediatamente começou a chupar seu dedo, no entanto o motivo não era prazer, pelo menos não sexual, seu pescoço estalou quando John puxou sua cabeça com toda a força.
O corpo caiu sobre as malas fazendo uma pilha delas desabar. Tudo como planejado.
“Já estávamos na minha cidade,” pensou ele se vestindo, “acho que podia mata-lo, não é?”
Não havia ninguém ali para responder aquela pergunta, porém ele se sentiu seguro e isso era o suficiente.
Uma das malas sobre sua presa era extremamente grande e, embora fosse de um rosa muito chamativo, serviria perfeitamente para o que precisava.
Dez minutos e dois ossos quebrados depois ele conseguiu colocá-lo na maldita mala, agora só precisava contar com a sorte de não dar de cara com o dono dela, a mochila com suas coisas estava jogada ali perto, então apenas a pegou e deixou o vagão.
No momento em que o trem parou ele saltou e saiu o mais rápido que pode, pegando um taxi logo em seguida.
Enquanto voltava para casa sua mente tentava entender como havia acreditado que alguém marcaria uma reunião no meio da noite, mas isso já não importava mais, seu estoque estava renovado e ele se sentia livre da ameaça de ser pego. Tudo melhor que o planejado.

Autor: Lexaror

Deixando o inferno

A tarde já caia quando Mark Roren chegou a cidade de Grande Miguel, ele só havia ido até a cidade vizinha para visitar uma pequena exposição de fotos antigas e tentar aumentar sua coleção pessoal. Em momento algum ele se imaginou na situação em que esteve horas atrás, rodeado por maníacos.
Claro que, assim como os outros, ele também é um assassino em série, no entanto sua situação é totalmente diferente, não é algo que ele faz simplesmente pelo prazer e sim para afastar as terríveis dores de cabeça. Mas é claro que a oferta do senhor Simon é tão boa para ele quanto para os outros.
Caminhando pelas ruas cheias pelo horário de pico Mark sentiu uma forte pontada na cabeça, como se apenas de pensar nelas as invocasse, já era a décima na última hora e ele sabia que dali para frente só iria piorar.
Ele sabia que a poucos metros havia uma praça pouco frequentada, o céu vermelho pelo pôr-do-sol parecia invadir sua mente dolorida que implorava para se livrar daquela maldição da única maneira que sabia.
Roren apressou o passo em direção à Praça das Flores.
Em sua mochila ele carregava o álbum com as fotografias que havia comprado, a carteira com seus documentos e o dinheiro restante da viagem, uma máscara completamente negra com dois chifres e seu canivete, afinal nunca se sabe quando as dores vão atacar.
Enquanto escondia suas coisas em um arbusto mais denso um pouco afastado ele percebeu um casal deixando a trilha principal, um alvo fácil até demais.
Os dois andavam tão absorvidos em sua conversa que nem perceberam sua aproximação, mesmo sem ele se esforçar para ser silencioso. Cada passo mais perto era uma pontada mais forte em sua cabeça, o vermelho do céu parecia dominar totalmente sua visão, quente como o sangue que estava prestes a ser derramado.

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–Tem certeza? – Perguntou o rapaz.
–Sim, – respondeu a moça, – fiz o teste ontem.
–Ah meu Deus! – Exclamou o jovem a abraçando de repente. – Esse é o momento mais feliz...
Ele finalmente percebeu a aproximação do estranho que mais parecia um demônio sem rosto, porém já era tarde demais, não havia como fugir. Um grito fraco de dor escapou da mulher em seus braços e seu peso aumentou repentinamente, o fazendo cair de joelhos.
Seus instintos diziam para correr ou envolver a mulher com seu corpo para protege-la, porém, por mais que tentasse, seu corpo não se movia. A sua frente o demônio parecia observar seu pânico se deleitando, com a respiração pesada e barulhenta que fazia toda sua pele se arrepiar, mesmo sendo muito maior que ele. Em sua mão ele notou uma pequena faca que pingava o sangue de sua amada.
Ele tentou gritar. Porém sua voz parecia ter desaparecido.
O demônio começou a se mover, o rodeando lentamente, sem desviar seu olhar inexistente de suas presas. A respiração do monstro atrás de si conseguia ser mais aterrorizante que sua visão. Algo cutucou suas costas fazendo um leve gemido dolorido escapar de sua garganta.

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Mark ergueu seu canivete o mais alto que pode, ajoelhado diante dele com uma mulher em seus braços estava o alívio para suas dores. Ele baixou a lâmina entre o pescoço e o ombro do jovem, não houve resistência alguma. Quando retirou o canivete um jato de sangue subiu quase atingindo sua máscara. Conforme o sangue escorria e a vida do rapaz se esvaia suas dores o deixavam, o vermelho em seu olhar era substituído pelo em suas mãos.
Sem perder tempo Roren deixou o lugar, não havia mais nada que o interessasse por ali.
Sua mochila continuava exatamente onde havia deixado, Mark retirou sua máscara, a guardou junto com o canivete e saiu da praça com as mãos enfiadas nos bolsos para esconder as marcas do que havia acabado de fazer.
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A tarde já ia embora quando finalmente chegou na rua de casa, ao olhar para cima ele pensou em como o céu estava bonito.
–É realmente bom poder aproveitar essas coisas simples. – Sussurrou para si mesmo.
–Boa noite, senhor Roren! – Gritou um de seus vizinhos passando de bicicleta.
Mark baixou o olhar imediatamente encarando ele irritado e acelerando seu passo como resposta, sua casa já estava a poucos passos.
–Por que sempre tem um desgraçado para estragar tudo? – Se perguntou ele destrancando a porta.
A casa do homem chamado de Diabrete não chega perto do que as pessoas imaginariam, revirada e repleta de sujeira ou escura com caveiras e velas como enfeite, era na verdade um lugar comum e muito aconchegante, exceto pelas grades nas janelas, as três travas na porta da frente e as tábuas prendendo a dos fundos. Uma casa comum para um senhor de idade, pelo menos um consideravelmente paranoico, com sua televisão antiga de tubo, seu rádio que parecia não ser usado havia anos, uma poltrona próxima a lareira, mesmo havendo um aquecedor no canto da sala, diversos quadros com fotos antigas, somente suas favoritas, e uma prateleira repleta de álbuns com o restante de sua coleção.
Com uma inspirada profunda o velho absorveu o cheiro reconfortante do seu lar, segurança e paz finalmente. Roren sentia que sua casa era quase um pedaço fora do mundo ruim e sombrio que ele deixava agora.
Aquele mundo mau e doloroso ficava para trás com o simples bater de uma porta.

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Autor: Lexaror

Proposta inusitada

Os passos ecoavam pela rua deserta enquanto Sally caminhava. Seus saltos, mesmo sendo baixos, machucavam seus pés, mas se o trabalho exigia ela podia suportar. E o salário no fim do mês fazia tudo valer a pena. Porém havia algo muito mais difícil de suportar em seus saltos, e era ouvir aquelas batidas insistentes em sua cabeça. A cada passo ela sentia uma agulha cutucar seu cérebro ou talvez fosse aquele maldito coque apertando de mais sua cabeça. Ela resolve soltá-lo e se pergunta por que não fez isso antes. Seus longos cabelos se espalham com o vento frio da noite, parecendo deixar um rastro dourado pelo caminho.
Era um belo cabelo, loiro natural, liso. Chamava a atenção de muitos homens, alguns simpáticos e interessantes, mas em sua grande maioria babacas que a tratavam como uma boneca sexual. E dessa vez surgia um novo tipo - o mais perigoso de todos.
Alguém se esgueirava pelos becos a observando - um homem magricelo e alto - que qualquer um teria dificuldade em afirmar que era totalmente saudável. Com seu nariz protuberante e levemente curvado se destacando como em um vilão de desenho infantil.
Não faltavam mais que duzentos metros para Sally chegar em casa. Já podia se imaginar na banheira com água quente, deixando o stress do dia escorrer ralo abaixo. Sua mente estava tão distante que mal percebeu a aproximação do estranho, mesmo que ele não estivesse fazendo esforço em manter silêncio.
Um par de mãos ossudas e pálidas agarraram seu pescoço a despertando do seu transe - ela tentou gritar -, mas ele tapou sua boca. E mesmo com sua aparência esquelética, conseguiu a arrastar para o beco sem grandes dificuldades.
Foi terrível. O homem pôs uma faca contra sua garganta e Sally entendeu imediatamente o que aconteceria se gritasse. Enquanto isso suas roupas eram arrancadas e o homem balbuciava coisas incompreensíveis.
Foi doloroso. Não havia forma de aquilo ser prazeroso para ela. Mesmo querendo virar o rosto, ou sequer fechar os olhos para se afastar ao menos um pouco da monstruosidade que se movia por cima dela, ela não conseguia mover o mínimo do seu corpo.
Foi aterrorizante. Após o que pareceu ser uma eternidade ele finalmente terminou e a soltou. Por um breve momento ela teve total consciência do seu corpo, estava suja, tinha que sair o mais rápido possível para poder se limpar. Aquela era a pior sensação que podia imaginar.
Não houve tempo para um banho, o homem aproximou a lâmina de sua garganta. A pobre coitada ainda tentou, em vão, pedir por misericórdia - porém, ele cortou antes disso. Sangue se espalhou para todos os lados, cobrindo até mesmo parte do rosto do homem. Ele tocou sua própria face com a ponta dos dedos, deslizando lentamente por ela, experimentando aquela nova sensação - que não era boa -, mas também não se podia dizer que era ruim.
Antes de poder dizer como sentia-se um saco de pano cobriu sua cabeça e alguém realmente grande o agarrou pelas costas, o caçador estava se tornando a caça.
– Se gritar ou resistir de qualquer forma, – sussurrou uma voz extremamente forte em seu ouvido, – vou fazer seus pés tocarem sua nuca.
A seriedade da voz já seria o suficiente para convencê-lo. No entanto assim que o estranho agarrou seus braços, com mãos que pareciam de um gigante, e o ergueu sem qualquer dificuldade, até mesmo a menor esperança de escapar dessa situação inusitada se desfez.
O homem caminhava apressado enquanto carregava seu corpo imóvel pelas ruas escuras e desertas. Em pouco tempo ele foi atirado em um lugar acolchoado. Uma batida soou próximo a si e logo em seguida outra mais distante - estava dentro de um porta-malas.
Durante todo trajeto ele pensou várias vezes em tentar escapar, já que não estava amarrado; porém só de se imaginar sendo pego novamente por aquela monstruosidade, já o fazia mudar de ideia.
O carro parou, ele pode ouvir a porta sendo batida novamente, segundos depois o porta-malas foi aberto e um pouco de luz conseguiu passar levemente pelo saco de pano - não que isso ajudasse a reconhecer onde estava. O brutamontes tornou a carregá-lo sabe-se lá para qual terrível fim.
Ele pode perceber uma mudança drástica de luz, estavam entrando em algum lugar; após ouvir o rangido de uma porta sendo fechada o estuprador foi colocado em uma cadeira extremamente confortável.
– Está atrasado. - Disse uma voz nova. – Por que cobriu a cabeça dele?
– Desculpe, senhor. – Respondeu o gigante. – Ele estava caçando, não quis atrapalhar. Eu achei que se chamasse de repente poderia acabar assustando ele.
– Fez certo Trevor. -Disse o outro um pouco mais tranquilo. – Não se deve atrapalhar esse tipo de momento. Bom trabalho. Pode retirar o saco.
A luz aumentou repentinamente, tirando sua visão.

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– Boa noite, senhor George. – Disse um homem de terno sentado sobre a mesa. – Estávamos a sua espera.
George olhou ao redor desesperado, pelo menos oito pessoas estavam sentadas a sua volta, todas com expressões tão perdidas e confusas quanto a dele; ninguém parecia estar ali totalmente por vontade própria, exceto pelo estranho de terno e o gigante em frente a única porta do lugar.
– Agora que todos estão aqui podemos começar. – Continuou o homem diante deles. – Pedi para que todos vocês fossem reunidos aqui por terem algo especial em comum. Sabem dizer o que é?
Uma jovem moça ergueu a mão lentamente, mas ainda com uma certa firmeza, o homem balançou a cabeça dando permissão para que ela falasse.
– Levando em consideração tudo que vi e ouvi até agora, – começou ela hesitante, – e pelo que sei de mim mesma, me leva a acreditar que...
A moça parou e engoliu em seco. Sua dedução a dirigia para algo extremamente sombrio.
– Continue...  – Ordenou o homem.
– Todos aqui são assassinos em série. – Terminou ela de uma vez.
Toda tensão no ar pareceu se multiplicar, todos ficaram paralisados, o que realmente agradou seu estranho anfitrião.
O pânico costuma afetar as pessoas de maneira diferente em cada momento. Enquanto alguns nem conseguem se mover, outros podem se tornar extremamente violentos.
– Fale por você, vadia. – Gritou o homem sentado ao lado dela levantando-se. – Nunca tirei a vida de ninguém!
– Senhor Care, por favor... – começou o anfitrião.
– Nem tenta! – Interrompeu ele. – Não vou ficar aqui ouvindo merda! Acha que esse gorila na porta pode me segurar? Eu sou tão forte quanto ele!
Não havia como negar que John Care era um homem forte, grande e ameaçador até mesmo para o gigante que ele chamou de gorila. Porém, algo não parecia ter passado pela sua cabeça, o tal “gorila” estava armado.
Um facão, com a lâmina extremamente brilhante, surgiu e parou diante do pescoço de John fazendo-o se arrepender da sua atitude agressiva.
– Não acho que isso seria algo inteligente de se fazer, senhor Care. – Disse o homem diante deles. – Ou devo te chamar de “Arranca Couro”?
A expressão que tomou a face de John, foi mais que satisfatória para o homem de terno.
Tão rápido quanto sacou o facão Trevor tornou a escondê-lo em seu sobretudo com um movimento rápido. Care deixou-se cair na cadeira atrás de si.
– Obrigado, Trevor. – Continuou o homem. – Bem, a senhorita Castell está certa em sua dedução. Todos nesta sala são assassinos em série. A nova pergunta é: Por que alguém reuniria um grupo de assassinos, se não fosse para prendê-los?
Desta vez a reação foi ainda mais agressiva. Quatro deles se ergueram, o homem chamado Trevor respondeu de imediato, dessa vez não puxando sua lâmina, mas sim um revólver.
– Porém esta não é uma situação comum. – Prosseguiu o homem sem se abalar. – Os trouxe até aqui para fazer uma proposta. Todos enfrentam o mesmo problema toda vez que fazem uma vítima...
– Sermos pegos. – Completou um homem calvo.
– Exato! – Concordou o homem. – O que quero oferecer aqui é um tipo de trabalho. Eu impeço que sejam pegos e, de tempos em tempos, vocês executam certos trabalhos para mim. Não irei pagá-los, pelo menos não com dinheiro, mas posso presenteá-los quando considerar que estão fazendo um bom trabalho.
O silêncio dominou o lugar por alguns momentos até que uma jovem de cabelos desgrenhados ergueu uma das mãos.
– Sim, senhorita Colly. – Permitiu o anfitrião.
– O que acontece se não aceitarmos? – Perguntou ela.
–Da minha parte prometo que não farei nada. – Respondeu ele. – Mas posso garantir que mais cedo ou mais tarde acabarão sendo pegos.
Novamente o silêncio pairou no ar por algum tempo.
–Não vou pedir que tomem essa decisão imediatamente. Podem ir para suas casas ou qualquer outro lugar em que estejam hospedados nessa cidade e retornar amanhã - caso queiram aceitar minha proposta.

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Assim que todos deixaram o local o mais rápido que conseguiram. Trevor fechou a porta e se voltou para seu chefe.
–Quantos o senhor acha que vão voltar? – Perguntou ele.
–Bem, – começou o homem deixando a mesa e indo para a cadeira atrás dela, – tenho um bom pressentimento sobre esse grupo.
De dentro da gaveta mais alta ele retirou uma pasta com informações de todos que ali estavam há pouco.
–Pelo menos quase todos. – Trevor não conseguiu ver a quem seu chefe se referia. – Chame Charles aqui, por favor.


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Autor: Lexaror

Edição: Estevão